2 de set de 2011

Saudades

Hoje tomo um golinho de saudades. Acordo na urgência de rever entes queridos que já se foram. Doce despedida. Lembro-me bebê, criança, adolescente tocando e sendo tocada por outros seres. Como somos marcados! Lembranças felizes e , outras, dolorosas. Minha jornada, meus caminhos e descaminhos; sempre alguém comigo e me espreitando ou se afastando até eu não mais poder ver. Morte também são os rumos diferentes que cada um segue. Morte sou eu que me esforço em me ver em tempos antigos. Quantas vezes renasci? Se estou no devir, perco a essência e me transformo em história. Na verdade, tenho medo de ser esquecida.
Marisa Speranza

25 de jun de 2011

Ela

Ela se nutria de dor. Sentada a seu lado, fazia-lhe carinho porque seu silêncio era perturbador. Estávamos no bar barulhento e nada era mais excessivo do que seu olhar. Tudo que pedia era uma chance de viver. Abriu mão por conta do marido, dos filhos e de algo não confessado. Estava como zumbi enquanto a vida pulsava. Queria estender-lhe a mão, conversar, dizer o quanto ela é capaz. Fiquei pensando o quanto as pessoas abrem mão por conta de coisas e,  depois de um tempo, percebe-se sem sentido, sem valor e sem reconhecimento. Ficou presa, acomodada, sustentada e sem pés, com o coração despedaçado, com uma ira muda. Pedi sopa, bebemos. Seus olhos continuavam marejados de lágrimas. Mas, foi o único instante  que ela se deu uma trégua. Acabou rápido, voltou à terra desconhecida por mim. Ela não quis compartilhar , não quis se ligar. Talvez a verdade fosse dura demais e talvez pudesse quebrá-la. Pessoa íntegra, amarrada a valores excessivamente cristãos, a uma moral estagnadora. Já não questiona, já aceitou abrir mão. Chego em minha casa com uma sensação pesada, de impotência.Quero acreditar que de alguma forma a toquei, que ela possa refletir e ir em direção a algo que a faça agir e ser mais feliz. Eu sempre quero acreditar na mudança, nos deslocamentos, nas sutilezas, nos encontros
Marisa Speranza

26 de fev de 2011

As amizades

  Hoje é dia de aparecer. Não sei qual foi o ímpeto. Dia complicado com muitos afazeres. Nem parece que é sábado. Daqui a pouco verei um filme acompanhada de um bom vinho. Estava pensando nas pessoas que passam em nossas vidas, independente se são boas ou não. Aprendo cada vez mais que confiança é fundamental,mas por outro lado, todos cometemos alguns erros. Então o que será que move as amizades? Uma certa utilidade com afeição? No príncipio, talvez. Mas, tem algo que toca um ponto de nosso ser que nos deixa menos formal, menos na defensiva, com um gosto bom na boca. Nem sempre quero ver meus amigos. São dias que não quero a repetição. Quero algo inaugural, mesmo com o mesmo tom de pele e olhos. As coisas só acontecem nos encontros e não dá para idealizar, querer enquadrar o que sentimos e cumprir todas as expectativas. Espera-se sempre muito de um amigo. Eu já não espero tanto; apenas ser tocada quando for possível. As pessoas criam regras que nem sempre podemos cumprir e, com isso, estagnamos. Contudo, acontece algo comigo peculiar. Não quero mais algumas pessoas. Não que elas sejam más ou que tenham defeitos que eu também não os possua. É quando me dou conta que preciso fazer malabarismos porque não posso deixar fluir o que sinto, o que penso. Percebo um peso, uma certa sensação de melancolia, de algo que um dia foi e que não é mais possível. É maravilhoso também quando podemos dizer adeus, irmos em novas direções. Simplesmente porque a fonte secou; nada mais encanta. Apenas clichês. O cuidado com as palavras é grande porque elas querem me analisar e sem o meu consentimento. Saber que posso ir embora e ficar é muito bom, porque independente da ausência ou da presença, já pude aprender, já fui marcada. Todas as pessoas que passaram  já me afetaram e isso é lindo. Sou grata às amizades que nada me cobram porque sabem que gosto de voar, de estar em céus ainda não conquistados
    Marisa Speranza