27 de nov de 2007

Orgulho


Sua cabeça parecia estar fora do corpo. Tudo a remetia àquele momento. Foi há tanto tempo e, na certa, faria diferença se ela tivesse falado alguma coisa. Não obstante, preferiu calar-se e todas as suas coisas foram colocadas de lado. Sua vida ficou despedaçada.
A miséria emocional que se encontrava era grande. Seus afetos, às avessas. Iria morrer mais um dia, se não voltasse atrás. O orgulho era demais. Sua casa é sombria, seus móveis escuros parecem dizer quem ela é. Sabe o que precisa fazer para deixar entrar luz em seu coração. Ainda não está preparada para tal passo. Sua energia encontra-se esgotada. Não se lembra mais das alegrias que a motivavam a cantar e dançar. Caminhava lentamente sobre chão macio; dava-lhe a sensação de queda e vertigem. Suas roupas eram simplórias, de cores sem tonalidades. Sua mente esgotada, apenas descansava quando sonhava acordada. Lembrava-se do amor que partira. Todas as falsas verdades haviam sido ditas e ela não conseguiu dizer uma única palavra que fizesse sentido. O rio corre lentamente, o tempo escorre. Ela se dissolve em lembranças e embaraços. Quanta miséria! Não sabe mais nomear o que sente. Sofre de sofrimento é o que ela diz. Às vezes acorda na madrugada, gritando o nome de seu amor. Ele se foi, ele se foi. Lágrimas e água se misturam no gole. Precisa dormir em paz. Precisa dizer apenas a palavra. Que palavra? O que outras mulheres diriam para manter por perto o amor? Ai dela, que sofre sem saber do maior tormento: não sair de si e se doar. Quanta infelicidade!


Marisa Speranza

16 de out de 2007

Oração II


Todos os dias eu rezo. Não para deus, mas para a vida. Às vezes, acordo às avessas e parece que todas as paredes da casa irão se rachar. Meu sofá da sala, amarelo, sofre quando me jogo sem piedade.Mas, depois do café o sol chega a meus olhos e tudo em mim, encanta. Sou outra, delicada, de bem e amante. Quero brincar com o dia, fazer dos minutos, instantes eternos. Quero tocar pessoas e participar com elas. Meu jeito de dizer as coisas é sempre muito humano. Quero viver cada dia como se fosse único. Mas, não é? Cada pedacinho de mim se modifica quando toco partes alheias e diferentes. Estou na fronteira entre mim e de quem vem em minha direção. Fico com jeito de sapeca e me deixo levar. Continuo caminhando, olhando e enxergo a luz e a escuridão. Mergulho na paisagem que se apresenta. Deixo que o amor me toque, não o piegas, mas o que faz meu corpo vibrar pelo simples fato de estar viva, seja diante das coisas boas ou das coisas ruins. Quero modificar, quero me deslocar, para fora, para dentro, ir e vir. Quero chegar em casa, saborear todos os cantinhos e frestas que falam comigo. Quero descansar, quero deixar que meus pensamentos cessem.Quero dormir. Agora vou rezar e sonhar. Amanhã será um novo dia.

Marisa Speranza

15 de out de 2007

Vampiros

Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo. Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne. Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor. Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.

Martha Medeiros

19 de set de 2007

A Lua que menstrua







Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que
menstrua...

Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.


Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.


Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar,
mas é outro lugar, aí é que está:

cada palavra dita, antes de dizer,
homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada
palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda
pra ela!

Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.


Cuidado moço, quando cê pensa que
escapou é que chegou a sua vez.

Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma,
além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.


Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...

Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas
e mais se afasta dela
Cuidado, moço, por você ter uma cobra
entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente

Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega
com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

Você que não sabe onde está sua
cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar,
ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo
daqui!

O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se
queixe: VACA é sua mãe. De leite.

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!


Elisa Lucinda




18 de set de 2007

O mar de Cassandra


Cassandra adorava ir à praia. Ficava sentada em sua cadeira lilás, olhando para o mar, para as gaivotas e ouvindo os gritos de alegria das crianças. O mar lhe transmitia calma, sensação de morno e acolhimento. Parecia que o sol lhe abraçava sem pudor.Cassandra há muito não saía para desfrutar da natureza. Era uma mulher simples, pacata, de pouca conversa. Geralmente, o marido importante, doutor, é quem convidava algumas pessoas para jantares de negócios em sua casa. Sempre quis abrir uma grande clínica, mas o dinheiro não era muito e nunca sabia em quem confiar. Por enquanto, o marido de Cassandra, tinha um pequeno consultório na periferia. Eram pessoas felizes. Cassandra havia vivido para os filhos, agora crescidos e independentes. Chegara sua hora de poder desfrutar a vida. Queria ser uma mulher desejada e não somente ser a dona de casa, a mãe, a boa vizinha, a boa amiga. Ela era tudo de bom e já estava sentindo o peso de ter que cumprir esse destino. Em seus pensamentos, envolta na brisa que lhe percorria o rosto, Cassandra se imaginou uma mulher linda, com um vestido sensual, bronzeada do sol, com unhas pintadas de vermelho, com o corpo esguio, de porte altivo. Imaginou-se sendo beijada, não pelo homem que amara a vida toda ,mas por alguém mais lascivo, que realmente pudesse lhe dar prazer, de fazer com que se sentisse liberta e arrebatada. Imaginou o homem levando-lhe para um jantar chique, à luz de velas. Depois ele a levaria para sua casa, para o seu quarto e se amariam até de manhã. Cassandra suspira de imaginar os lençóis de seda, gelados e a pele quente do amante. Um contraste delicioso, que fazia do instante, perfeito.
Cassandra abriu os olhos e saiu do devaneio. Sentiu-se revigorada e mergulhou nas espumas do oceano. Sentia-se sensual, viva.
Iria mais à praia.


Marisa Speranza

4 de set de 2007

Conto de Miriam


Miriam caminhava de um lado para o outro. Estava desanimada e desesperada. Teria que desfazer tantas coisas; se meteu com pessoas erradas. Ela estava sendo cobrada por suas atitudes e todos lhe diziam que havia sido em vão. Ela chorou a noite toda, envergonhada porque abrira mão de sua liberdade quando assumiu o erro da outra.
Sua família, incrédula, passava freneticamente os panos pelos móveis, na tentativa de encobrir as poeiras que se acumulavam; era uma espécie de camuflagem, não tinham coragem de olhar Miriam nos olhos. Ela se martirizou porque tinha sido tão ingênua, foi torturada com palavras odiosas e pensou mesmo que fosse tão importante ao ponto de alguém querer ir contra ela. Assinou os papéis da credulidade e, quando retornou, a que se dizia amiga, já havia saído da sala, levando consigo a assinatura de Mirian. Apenas as mentiras e omissões ficariam a remoer-lhe o estômago. Estava confusa porque nunca imaginou que pudesse cometer tal engano; eram anos e anos de vida e ela sabia com quem lidava. Mas, enganou-se. A outra, de fala mansa, semblante claro, não prestava. Estivera o tempo todo ali para que Miriam assinasse suas confissões. Ela traiu, emprestou dinheiro e caluniou. Agora será presa porque foi desmascarada. A família de Miriam chora porque ela está muito abatida. Estava sofrendo de vergonha. Miriam pensou em se matar, mas não teve coragem. Sua maior dor era a traição. Estava sozinha agora com sua culpa e arrependimento. Bastaria pedir desculpas a todos que ela prejudicou? Ela sabia que não. Sua assinatura, sua marca estavam naqueles papéis. Violentou-se. Terá que sofrer as conseqüências de sua má fé, no final não adiantou ela ser boa. Aqui se faz, aqui se paga. Sua família está aniquilada. Miriam levanta-se e pede, a esmo, por perdão.

Marisa Speranza

28 de ago de 2007

Segunda-feira

Hoje saí por aí com bolsa e sapatos chiques. Na rua, reparei que havia colocado dois brincos diferentes; um de ametista e o outro de cristal. Onde estava com minha cabeça? Acho que a moça que me serviu chocolate quente reparou e não ligou. Até porque sempre faço lá os meus lanchinhos e sempre pago a conta .Depois fui ver vitrine sem gastar dinheiro; apenas olhar algumas coisas e cheirar. Adoro cheiro de aromatizador de loja. O da Enjoy é tudo de bom. Lá na clínica a gente comprou o do Cats sapataria. E eu fui falar com as meninas da Maria Fé e jogar conversa fora. Bem que elas queriam me vender um vestidinho, mas eu resisti. Passei também naquele lugar que vende chocolates. Não ligo, mas as embalagens são bonitas.As pessoas sofrem por falta de chocolates. Acho engraçado. Mas gosto de vinho. Adoro olhar para as garrafas em adegas ou mesmo no Lidador. São vários tipos e eu sempre imagino uma cena de romance ou então eu degustando sentada na minha bergé.Estava com uma blusa elegante e jeans. Gosto dessa combinação. Olho as pessoas nos olhos quando passam por mim, de forma que os nossos olhares apenas se toquem. Têm vezes que são mais longos e segue-se um sorriso. As pessoas dizem que sou simpática. Também acho. Se estiver zangada sou brigona, mas já fui mais. Gosto mesmo de rir, conversar e ver gente bonita. Também fui ficar um pouco com minhas sócias e ver a arrumação que a faxineira fez. Está linda. Tudo tinindo e aconchegante. Parece uma casinha para a gente ser feliz. Meu dia foi completo quando meu parceiro de todas as horas foi me buscar de carro novo, cheirando a carro novo. Hoje estou com os cheiros e o meu é um perfume à base de baunilha. Essas misturas me encantam; pessoas e coisas se entrelaçando nas coisas do mundo.

Marisa

22 de ago de 2007

Conto de Alma


São 15h e Alma quer ir embora dali. Não agüenta mais o trabalho de ter que driblar tanta gente. Ela trabalha com a política da empresa e desde pequena já manipulava seus pais. Não suporta mais essa vida; quer paz, alguém que a acolha e diga que está livre. O dinheiro é muito, ela compra seus batons e esmaltes, duas manias que têm. Será que seu marido suportaria tanta futilidade? Ele logo diria: Alma para quê você quer essas besteiras? Alma pensa, desolada, que terá que continuar nesse trabalhinho. Seus sonhos são grandes, não são de riqueza. Ela se imagina numa praia conversando com meninos pescadores e, quem sabe, pegar um peixe também. Seu pai pescava e, às vezes a levava. Ela não gostava, mas agora sente saudades já que ele se foi. Talvez tivesse alguma graça pescar e ver o peixe morrer e depois comê-lo. Não gosta de maltratar animais, muito menos peixe. Na verdade, gosta de ver a rede ser lançada ao mar pelos pescadores, mas ao longe. O pôr do sol. Alma tem mais dois irmãos e, como caçula, tinha que fazer das tripas, coração para ter mais. Sempre lhe diziam que ela poderia esperar. Com isso, ela aprendeu a arte de dar a volta nos outros e conseguir o que desejava. Na verdade, Alma tinha um bom coração e encontrava-se presa em sua própria vaidade inventada. Quem a olhasse diria que era de pedra, que não tinha sentimentos. Vivera assim e sempre teve receio de mostrar sua fragilidade; poderiam pensar que era fraca. Tem um rosto bonito, claro, resoluto e sorri pouco de forma simpática. Seu olhar é duro, sua postura ereta transmite um ar de austeridade. Assim Alma sobreviveu ao mundo. Agora, precisa sair do transe, voltar para a sala de reuniões e vender o produto para seus clientes ingênuos. Alma pensa: um dia, vou fazer alguma coisa que gosto. Levanta-se, ainda, com sua soberba habitual.

Marisa Speranza

1 de ago de 2007

Aos predadores da utopia


dentro de mim
morreram muitos tigres


.
os que ficaram
no entanto
são livres
.
.
Lau Siqueira

Para os meus amigos


Canção da América


Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração.
Assim falava a canção
Que na América ouvi,
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir.

Mas quem ficou, no pensamento voou,
Com seu canto que o outro lembrou.
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou.

Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito,
Mesmo que o tempo e a distância
digam não,
Mesmo esquecendo a canção.

O que importa é ouvir
A voz que vem do coração.
Pois seja o que vier, venha o que vier,
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar,
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

(Milton Nascimento/Fernando Brant)

22 de jul de 2007

Conto de Maria




Maria vai à feira. Precisa comprar frutas, legumes e verduras. Os feirantes já a conhecem. Eles gritam pelo seu nome e dão-lhe de tudo para experimentar. Maria saboreia e,em suas mãos, as frutas se misturam com o dinheiro. Pensa: em casa terei que lavar tudo muito bem. Sua roupa e seus sapatos são simples e elegantes. Servem para caminhadas duras e longas. Daqui a pouco ela retornará ao lar, doce lar, pensa ela. Seus filhos e netos encherão a casa de risos, brincadeiras e sonecas Serão duas lazanhas porque a família é grande e italiana. Seu marido já está morto. Que falta ele faz! Um olhar silencioso, mas fraterno. Não era de falar muito, mas tocava com a alma e com as mãos. A criançada chorou quando o marido de Maria partiu para não mais voltar. Elas olhavam para o céu e diziam que seu avô havia se tornado uma estrela brilhante. Um dia, no aniversário do marido de Maria, as crianças correram e soltaram fogos e cantaram parabéns. Tudo foi muito emocionante porque para as crianças, tudo vive. A morte está no lugar certo. É natural, não é sofrida como para os adultos. Crianças fazem castelos de areia na beira da praia e entendem que o que constroem, o mar leva.Maria, uma mulher de fibra, há muito deixou de ser cristã, não por revolta, mas porque entendeu que amar a vida já bastaria. Sua alegria é contagiante, às vezes, ela dá gargalhadas e fala muito no falecido. Fala com alegria e uma ironia de mulher viúva que pode falar o que quer porque ninguém vai recriminá-la. Um dia ela contou que o marido ficou sem falar com ela quase uma semana porque tinham brigado feio. Maria sempre foi orgulhosa e ele também. Sempre se amaram e voltaram a se falar da mesma forma que haviam parado; naturalmente. Todos riram porque ninguém imaginava que o marido de Maria pudesse ser rabugento. Ela tinha muitas estórias para contar e sabia que em alguma, ela as interromperia. A hora dela chegaria também. E cabia aos filhos e netos continuarem.Chegou a hora da sobremesa.

Marisa Speranza

17 de jul de 2007

.

"Nada existe de mais frágil do que uma criatura iludida a seu próprio respeito."

A loucura de Cintia


Cintia começou a gritar de desespero. Havia morrido? Talvez estivesse no inferno por tantos pecados que cometera. Era apenas o pesadelo de sua própria vida. Quando acordou e se viu tão angustiada, correu para o telefone prá falar com a outra qualquer e escutar: "Não, querida! Você é maravilhosa. Você tem a sabedoria. Não fique assim,Cintia. Você é doce, generosa e nada lhe acontecerá." Como lhe fazia bem essas palavras porque sentia que era superior a tudo e a todos. Tinha necessidade de ser vista, ouvida e reconhecida. Viveria sem nada,mas sem espelho nunca.Como sofria de excesso de imagem! Sua pele alva, quase morta, dizia-lhe que não tinha vida própria; estava presa a seu ego, a sua canastrice de todos os dias. Bebia da hóstia das palavras proferidas por um oráculo abandonado. Quanta tristeza lhe pertencia. Era alvo de sua própria ironia e da necessidade desenfreada de poder. Sofria de mal estar e desde criança se imaginava como salvadora, uma heroína do universo Nem a loucura a agüentava mais; seu delírio não tinha fim. Há muito tempo perdeu a razão. Nem sabia se já estava morta. Delirava seu próprio enterro e imaginava, que ao ser velada, o mundo inteiro chorava sua morte.Quantas chorariam por mim? Quanta carência! Cintia sempre foi estrábica porque sofreu de excesso de reflexo. Não tinha foco e nunca aprendeu a enxergar o mundo como ele é.Não acompanha seus movimentos. Prá se sustentar, Cintia é presa aos rituais de iniciação e destruição.Às vezes, se vê como Prometeu, aquele que roubou o fogo para a humanidade. Mas, na verdade, Cintia, no mito, seria apenas o abutre.


Marisa Speranza

15 de jul de 2007

O Universo

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.


Alberto Caeiro

3 de jul de 2007

Conto da Mariana

Mariana ouve ruídos na casa. Quer dormir,mas tudo lhe parece ensurdecedor.Debate-se, solitária, na cama, sabendo que daqui a pouco o sol irá raiar e terá que se sujeitar a mais um dia. Sua respiração está ofegante, seu medo é grande. Ele foi embora; já não lembrava se fazia um dia ou cem anos. A saudade a sufocava. Onde será que ele estaria? Numa cama de seda ou com latas de cerveja pelo chão? Pensava nela? Quanta dor havia naquela separação. Tantas coisas não ditas e outras, demais. Tudo neles era além da conta; a experiência de um e a inocência de outro. Às vezes, eles se revezavam nesse papel. Era esquisito, todos diziam. Você é feliz? Você faz de conta? Não tinham filhos; ficara ali a vida inteira com ele. Era uma quarta-feira. Ele não chegava e Mariana se desesperou. Ligou para as amigas, para a mãe e para os hospitais. Não ligou pro hotel sórdido onde ele se encontrava com a outra que lhe tirara tudo. Confiava. Seu coração dispara diante da incerteza: estaria morto? Prefiro que ele esteja me traindo. Diante da lembrança, levantou-se da cama, horrorizada. Iria sufocar pela segunda vez. O ar lhe faltava como naquela quarta às três horas da manhã. O marido de Mariana não chegou, de mansinho. Fez barulho para acordá-la. Não precisava. Ela lhe perguntou onde ele esteve e ele disse: longe dos cheiros e dos gostos que fazem eu me lembrar onde estou há tanto tempo. Vou embora. Mariana se desespera e chora e morre. Está morrendo agora. Chora e chora. Nunca mais fará outra coisa a não ser chorar e morrer lentamente.

Marisa Speranza

2 de jul de 2007

Pessoas


Sempre espero que pessoas virem gente; não piegas e sedutoras. Pessoas que se comprometam com a vida, que não enrolem com suas distorções e sabotagens. A maioria pensa que o outro está a sua disposição, que verdades são as mentiras que inventam para si própria. Pessoas não estão bem, fazem alianças e querem subir na vida como foguetes. Precisariam antes ir fundo em sua essência que não é tão boa assim. Assusto-me com pessoas tão doces e ao mesmo tampo venenosas. " O mundo está acabando". Aqui e ali, perto e longe. Não temos mais lugar para as verdades que necessitam ser ditas e aprendidas com maturidade. Não se cresce na bajulação. O verdadeiro homem é aquele que permite ao outro, espelhar-se e, em sua coerência, quebrar a imagem que reflete sua ignorância mesclada de pose. Ética, palavra esquecida , abandonada. Não temos mais saída e , ao mesmo tempo,algumas pessoas ainda têm a boa capacidade de me supreender e, por isso, tento sempre melhorar para que eu possa encontrá-las.
Marisa Speranza

..

"Na maioria das vezes, um pepino é somente um pepino"

Freud

20 de jun de 2007

Dos nossos males



A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
Mario Quintana



As palavras que usamos

As palavras que usamos, especialmente aquelas que freqüentemente parecem ser sem importância,dizem um bocado sobre quem somos,e como abordamos o mundo.

James Pennebaker

Todas as cartas são ridículas





Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)


Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

Oração



Não é preciso acreditar em Deus para orar. A mãe que arruma o quarto para o filho que já morreu está orando. Ela ora diante de uma ausência. Ora à um filho que nunca voltará. Os objetos amados que se perderam no tempo podem ser encontrados no espaço das ausências. É fácil chegar lá. Basta embarcar na saudade. Oração é a saudade transformada em poema.

Rubem Alves

Para as minhas "inimigas"



19 de jun de 2007

Coisas simples


Hoje quero escrever sem conteúdo, sem preocupação se erro ou acerto Quero estar no limbo, no lugar de faz de contas, no lugar da criança. Ser eu mesma, sem superego. Não acredito que possa, ainda não, talvez quando morrer. Agora vejo a imagem da lagoa e da lua que reflete minha existência. Tenho tantos medos,mas o pior é o de não ser compreendida em minha essência, às vezes, tão confusa. Gera solidão. Solidão gera vazio e eu busco ser tudo que não me deixe só. Quero estar com o outro, que gosta de mim como sou.Preciso ter prazer e rir das verdades absolutas porque elas não existem.Gosto de pessoas que gostam de ver o luar na lagoa. Coisas simples.

Marisa Speranza

...


Tempo



quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)


acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
Viviane Mosé

Nada como ter um amigo

Sempre sou feliz quando encontro "velhos amigos" que fazem bem ao coração.

18 de jun de 2007

Canto Noturno - AFZ - Nietzsche


É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante. É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de alguém que ama. Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz. Um anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor. Eu sou luz; ah, fosse eu noite! Mas esta é a minha solidão: que estou circundado de luz. Ah, fosse eu escuro e noturno! Como desejaria sugar os seios da luz! E até vós desejaria abençoar, pequenos astros cintilantes e vagalumes, lá no alto! - e ser feliz com as vossas dádivas de luz. Mas eu vivo na minha própria luz, sorvo de volta em mim as chamas que de mim rompem. Não conheço a felicidade dos que recebem; e muitas vezes sonhei que roubar deve ser ventura ainda maior que receber. É esta a minha pobreza: que minha mão nunca pára de dar presentes; é esta a minha inveja: qie vejo olhos à espera e as noites iluminadas do anseio. Ó desventura de todos os dadivosos! Ó obscurecimento do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome insaciável na saciedade! Eles recebem os meus presentes; mas tocarei ainda a sua alma? Há um abismo entre dar e receber; e também o menor dos abismos precisa ser transposto. Nasce uma fome da minha beleza: desejaria magoar aqueles que ilumino; desejaria roubar aqueles que presenteio: assim tenho fome de maldade. Retirar a mão, quando já a outra mão se lhe estende; hesitar como a cachoeira, que ainda hesita ao precipitar-se: assim tenho fome de maldade. Tal vingança medita minha plenitude, tal perfídia brota da minha solidão. Minha ventura em dar extinguiu-se ao dar, minha virtude cansou-se de si mesma pela sua superabundância! Quem sempre dá, corre o perigo de perder o pudor; quem sempre reparte, cria calos em suas mãos e coração, de tanto repartir. Meus olhos não choram mais ante o pudor dos pedintes; demasiado endureceu minha mão, par sentir o tremor das mãos satisfeitas. Para onde foram as lágrimas dos meus olhos e o frouxel do meu coração? Injusto, no fundo do seu coração, com tudo o que é luminoso; frio para com os outros sóis - assim segue, cada sol, o seu próprio caminho. Como uma tempestade, percorrem os sóis, velozmente, suas órbitas: esse é o seu curso. Seguem, inexoráveis, a sua vontade: é essa a sua frieza. Ó seres escuros, noturnos, somente vós criais o calor, haurindo-se dos corpos luminosos! Somente vós bebeis o leite e o bálsamo dos seios de luz! Ah, há gelo em volta de mim; queima-se minha mão tocando em gelo! Ah, há uma sede, em mim, que almeja pela vossa sede! É noite: ai de mim, que tenho de ser luz! E sede do que é noturno. E solidão! É noite: como uma nascente, rompe em mim, agora, o meu desejo - e pede-me que fale. É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante. É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de alguém que ama. - Assim falava Zaratustra.

17 de jun de 2007

Domingo


Domingo e preguiça. As vozes das crianças se fazem presentes com a imobilidade de agora. Amanhã será meu encontro com o pão meu de cada dia: responsabilidade. Antes, ao acordar, arregalarei os olhos e esticar-me-ei para sentir que ainda tenho um corpo; não sou apenas feita de sonhos. Sinto que preciso descansar. Preciso deixar fluir minha sensibilidade e estar de bem com o mal. Fazer nada é bom. Fazer tudo é ruim. Quero equilíbrio. Não quero perder-me em papéis. Não quero ser apenas literal. Quero ser metáfora para a existência alheia. Quero abrir a porta e encontrar-me no Outro. Paz absoluta, mesmo que seja relativa.

Marisa Speranza

16 de jun de 2007

Helena - um pequeno conto


Ela saiu de mansinho à procura de algum lenço para assoar o nariz. No meio do caminho, esqueceu porque estava ali, na sala. Olhou em volta, confusa e inesperadamente jogou-se no sofá. Estava entediada. Sua cabeça dava voltas não por causa do resfriado que até já esquecera, mas porque tinha a sensação de não saber para onde ia. Ficou paralisada por alguns segundos, mas o dever chamou-a. O feijão na panela e os gritos das crianças famintas, inesperadamente, lembrou a ela porque viera a esse mundo. Sua vontade era sair correndo, largar tudo e a todos e fingir que era alguém diferente. Seu olhar estava morto, sua voz já não falava, apenas gritava: Hora do almoço! Aquela gente pequena, seus filhos, é claro, como soldados, desceram e destruíram em pouco tempo tudo que ela fizera. Parecia o mito de Sísifo. Sentia-se assim: todos os dias as mesmas coisas. Que pessoa repetitiva, que mundo marcado por relógios e compromissos. Não sabia para onde ir. Limpou a mesa, lavou a louça, tirou as luvas e viu suas unhas mal tratadas pela vida. Sua imagem no banheiro, ao se olhar no espelho, mostrou-lhe que não sabia quem era. Procurou lembrar-se de seu nome. Procurou saber que sentido tinha um nome. Achou que era Helena. Parecia-lhe um nome bonito, em sua juventude, com seus cabelos loiros caídos pelos ombros. Agora esse nome lhe fugia e sentia-se na verdade uma Amélia, aquela que era uma mulher de verdade? Quanta ignorância, Helena pensou. Sentiu-se tonta e teve náuseas. Estava embrulhada. Ela era o embrulho. Coisas passadas, não estavam mais ali; sua memória já não ajudava. E seu futuro? Nem sabia seu nome, como saber pra onde ir. O presente vinha do quintal. Um cheiro de jasmim com suor de crianças. Já era quase noitinha. Mas o almoço não havia sido agora? Precisava fazer a janta. Levantou-se de sua letargia e foi pra cozinha. Descascou cebolas e chorou. Chorou muito porque sabia que Helena não mais existia.
Marisa Speranza

Apenas sonhos


Acordei prá dormir.
Hoje prefiro sonhar
Tudo fluir...
E quero me embalar
Não quero inventar
Vida pra dar certo
Quero errar
Quero cair
Quero estar longe e perto
Não fazer e não ter pra onde ir
Sonhar é diferente de viver
Quero hoje em sonho, não existir

Marisa Speranza

15 de jun de 2007

Nietzsche



Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
- Acaba lá com isso, ó coração!

...

"Precisamos tomar cuidado para não fazer do intelecto o nosso deus. Ele tem músculos poderosos é verdade, mas não tem nenhuma personalidade."
Albert Einstein

Minha casa


Ouço os risos de meus filhos. A matemática estudada com o pai faz-se presente no silêncio da noite. Estou aqui escrevendo e sentindo meu coração bater por vivenciar tal harmonia. Sou feliz porque fiz boas escolhas em minha vida. Sou feliz por ter tão poucos e profundos amigos.Toda seleção se fez necessária. Foram dores de perdas que se transformaram em buscas por novas possibilidades,pessoas e gestos. Sou feliz quando vivo todo o meu ser. Que a vida seja sempre generosa comigo.

Marisa Speranza

12 de jun de 2007

Fragmentos


"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite"

Clarice Lispector


"O oposto da vida não é a morte: é a repetição."

Geraldo Eustáquio


"Os erros são, no mínimo, um sinal de que estamos saindo da estrada principal e experimentando outros caminhos."

Roger Von Oech

...


Se procurar bem você acaba encontrando Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

11 de jun de 2007

Passagem das Horas



(...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri. vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse, Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo. (...)"

Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

Liberdade


Quero arriscar meus pensamentos e construir o script de minha vida. Quero sonhar ao contrário e viver do avesso. Quero atitudes e desejar o que é proibido. Quero fingir o orgasmo e acreditar no gozo de amanhã. Quero dançar e suar sob o homem amado e dizer mentiras para não falar apenas verdades. Quero enlouquecer de amor e falar sozinha no meu quarto. Quero banhar-me e sentir meu corpo pulsando vida. Quero relaxar e afogar as mágoas na poesia de cada dia que vivo. Quero ser simples, quero ser inteira, quero ser partes que se unem nos olhares que me encontram. Quero ser feliz e infeliz. Cada coisa a seu tempo. Marisa Speranza

A Perfeição


O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Clarice Lispector
Eu não tenho vergonha de dizer palavrões, de sentir secreções (vaginais ou anais). As mentiras usuais que nos fodem sutilmente essas sim sâo imorais, essas sim são indecentes.
Leila Míccolis

10 de jun de 2007

Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos morrer.Então sabemos tudo do que foi e será.O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.Com doçura.Aí se contém toda a verdade suportável : o contorno, a vontade e os limites.Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável,porque mordeu a alma até aos ossos dela.Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raíz.Cada um de nós é por enquanto a vida.Isso nos baste.

José Saramago


Lição das Gentes - Thais Guimarães




Levei tempo para aprender :desamizades não são coisas de inimigos.
Doemos pelos anos, pilamos com devagareza amargores sob a língua, de um amor interdito pelo perdido.
Os desamigos não têm sabor, nem ardor,raspam pela garganta, como um jacto triste de um bom tempero que azedou.
Depois, é a vida correndo pela vida afora,deixando pedaços para coser sem uma linha de costura.
Então, os desamigos ficam nesse lugar:da possível cerzidura.

Viagem


Quero voar e preciso de coragem. Cair no vazio, sem fronteiras. Paredes dizem onde estou; segura e estável. O quarto pintado de branco é o lugar dos sonhos. Lanço mão da realidade e acordo na queda ao descobrir que ainda tenho medo de liberdade. Apenas os pássaros podem voar. Continuo então tentando em meus devaneios de loucura e anseio.

Marisa Speranza



Coisas que penso


Peito aberto, boca amarga; são as coisas que penso e nem sempre muito boas. Estou para o que der e vier e mesmo assim sou surpreendida. Vida que pulsa em meu prazer e desprazer; depende da hora e se estou "vestida" ou "nua". Pecados são sempre ardentes e discussões ardem para se evitar encontros. Por isso, regojizo na minha capacidade de simplesmente viver e poder pensar e sentir com o corpo todo no pedaço inteiro. Sou boa e sou má; sou alguém e sou ninguém. Isso me basta.

Marisa Speranza

Exausto


Eu quero uma licença de dormir,perdão pra descansar horas a fio,sem ao menos sonhara leve palha de um pequeno sonho.Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,a graça de um estado.Semente.Muito mais que raízes.
Adélia Prado