20 de jun de 2007

Dos nossos males



A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
Mario Quintana



As palavras que usamos

As palavras que usamos, especialmente aquelas que freqüentemente parecem ser sem importância,dizem um bocado sobre quem somos,e como abordamos o mundo.

James Pennebaker

Todas as cartas são ridículas





Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)


Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

Oração



Não é preciso acreditar em Deus para orar. A mãe que arruma o quarto para o filho que já morreu está orando. Ela ora diante de uma ausência. Ora à um filho que nunca voltará. Os objetos amados que se perderam no tempo podem ser encontrados no espaço das ausências. É fácil chegar lá. Basta embarcar na saudade. Oração é a saudade transformada em poema.

Rubem Alves

Para as minhas "inimigas"



19 de jun de 2007

Coisas simples


Hoje quero escrever sem conteúdo, sem preocupação se erro ou acerto Quero estar no limbo, no lugar de faz de contas, no lugar da criança. Ser eu mesma, sem superego. Não acredito que possa, ainda não, talvez quando morrer. Agora vejo a imagem da lagoa e da lua que reflete minha existência. Tenho tantos medos,mas o pior é o de não ser compreendida em minha essência, às vezes, tão confusa. Gera solidão. Solidão gera vazio e eu busco ser tudo que não me deixe só. Quero estar com o outro, que gosta de mim como sou.Preciso ter prazer e rir das verdades absolutas porque elas não existem.Gosto de pessoas que gostam de ver o luar na lagoa. Coisas simples.

Marisa Speranza

...


Tempo



quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)


acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
Viviane Mosé

Nada como ter um amigo

Sempre sou feliz quando encontro "velhos amigos" que fazem bem ao coração.

18 de jun de 2007

Canto Noturno - AFZ - Nietzsche


É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante. É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de alguém que ama. Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz. Um anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor. Eu sou luz; ah, fosse eu noite! Mas esta é a minha solidão: que estou circundado de luz. Ah, fosse eu escuro e noturno! Como desejaria sugar os seios da luz! E até vós desejaria abençoar, pequenos astros cintilantes e vagalumes, lá no alto! - e ser feliz com as vossas dádivas de luz. Mas eu vivo na minha própria luz, sorvo de volta em mim as chamas que de mim rompem. Não conheço a felicidade dos que recebem; e muitas vezes sonhei que roubar deve ser ventura ainda maior que receber. É esta a minha pobreza: que minha mão nunca pára de dar presentes; é esta a minha inveja: qie vejo olhos à espera e as noites iluminadas do anseio. Ó desventura de todos os dadivosos! Ó obscurecimento do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome insaciável na saciedade! Eles recebem os meus presentes; mas tocarei ainda a sua alma? Há um abismo entre dar e receber; e também o menor dos abismos precisa ser transposto. Nasce uma fome da minha beleza: desejaria magoar aqueles que ilumino; desejaria roubar aqueles que presenteio: assim tenho fome de maldade. Retirar a mão, quando já a outra mão se lhe estende; hesitar como a cachoeira, que ainda hesita ao precipitar-se: assim tenho fome de maldade. Tal vingança medita minha plenitude, tal perfídia brota da minha solidão. Minha ventura em dar extinguiu-se ao dar, minha virtude cansou-se de si mesma pela sua superabundância! Quem sempre dá, corre o perigo de perder o pudor; quem sempre reparte, cria calos em suas mãos e coração, de tanto repartir. Meus olhos não choram mais ante o pudor dos pedintes; demasiado endureceu minha mão, par sentir o tremor das mãos satisfeitas. Para onde foram as lágrimas dos meus olhos e o frouxel do meu coração? Injusto, no fundo do seu coração, com tudo o que é luminoso; frio para com os outros sóis - assim segue, cada sol, o seu próprio caminho. Como uma tempestade, percorrem os sóis, velozmente, suas órbitas: esse é o seu curso. Seguem, inexoráveis, a sua vontade: é essa a sua frieza. Ó seres escuros, noturnos, somente vós criais o calor, haurindo-se dos corpos luminosos! Somente vós bebeis o leite e o bálsamo dos seios de luz! Ah, há gelo em volta de mim; queima-se minha mão tocando em gelo! Ah, há uma sede, em mim, que almeja pela vossa sede! É noite: ai de mim, que tenho de ser luz! E sede do que é noturno. E solidão! É noite: como uma nascente, rompe em mim, agora, o meu desejo - e pede-me que fale. É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante. É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de alguém que ama. - Assim falava Zaratustra.

17 de jun de 2007

Domingo


Domingo e preguiça. As vozes das crianças se fazem presentes com a imobilidade de agora. Amanhã será meu encontro com o pão meu de cada dia: responsabilidade. Antes, ao acordar, arregalarei os olhos e esticar-me-ei para sentir que ainda tenho um corpo; não sou apenas feita de sonhos. Sinto que preciso descansar. Preciso deixar fluir minha sensibilidade e estar de bem com o mal. Fazer nada é bom. Fazer tudo é ruim. Quero equilíbrio. Não quero perder-me em papéis. Não quero ser apenas literal. Quero ser metáfora para a existência alheia. Quero abrir a porta e encontrar-me no Outro. Paz absoluta, mesmo que seja relativa.

Marisa Speranza

16 de jun de 2007

Helena - um pequeno conto


Ela saiu de mansinho à procura de algum lenço para assoar o nariz. No meio do caminho, esqueceu porque estava ali, na sala. Olhou em volta, confusa e inesperadamente jogou-se no sofá. Estava entediada. Sua cabeça dava voltas não por causa do resfriado que até já esquecera, mas porque tinha a sensação de não saber para onde ia. Ficou paralisada por alguns segundos, mas o dever chamou-a. O feijão na panela e os gritos das crianças famintas, inesperadamente, lembrou a ela porque viera a esse mundo. Sua vontade era sair correndo, largar tudo e a todos e fingir que era alguém diferente. Seu olhar estava morto, sua voz já não falava, apenas gritava: Hora do almoço! Aquela gente pequena, seus filhos, é claro, como soldados, desceram e destruíram em pouco tempo tudo que ela fizera. Parecia o mito de Sísifo. Sentia-se assim: todos os dias as mesmas coisas. Que pessoa repetitiva, que mundo marcado por relógios e compromissos. Não sabia para onde ir. Limpou a mesa, lavou a louça, tirou as luvas e viu suas unhas mal tratadas pela vida. Sua imagem no banheiro, ao se olhar no espelho, mostrou-lhe que não sabia quem era. Procurou lembrar-se de seu nome. Procurou saber que sentido tinha um nome. Achou que era Helena. Parecia-lhe um nome bonito, em sua juventude, com seus cabelos loiros caídos pelos ombros. Agora esse nome lhe fugia e sentia-se na verdade uma Amélia, aquela que era uma mulher de verdade? Quanta ignorância, Helena pensou. Sentiu-se tonta e teve náuseas. Estava embrulhada. Ela era o embrulho. Coisas passadas, não estavam mais ali; sua memória já não ajudava. E seu futuro? Nem sabia seu nome, como saber pra onde ir. O presente vinha do quintal. Um cheiro de jasmim com suor de crianças. Já era quase noitinha. Mas o almoço não havia sido agora? Precisava fazer a janta. Levantou-se de sua letargia e foi pra cozinha. Descascou cebolas e chorou. Chorou muito porque sabia que Helena não mais existia.
Marisa Speranza

Apenas sonhos


Acordei prá dormir.
Hoje prefiro sonhar
Tudo fluir...
E quero me embalar
Não quero inventar
Vida pra dar certo
Quero errar
Quero cair
Quero estar longe e perto
Não fazer e não ter pra onde ir
Sonhar é diferente de viver
Quero hoje em sonho, não existir

Marisa Speranza

15 de jun de 2007

Nietzsche



Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
- Acaba lá com isso, ó coração!

...

"Precisamos tomar cuidado para não fazer do intelecto o nosso deus. Ele tem músculos poderosos é verdade, mas não tem nenhuma personalidade."
Albert Einstein

Minha casa


Ouço os risos de meus filhos. A matemática estudada com o pai faz-se presente no silêncio da noite. Estou aqui escrevendo e sentindo meu coração bater por vivenciar tal harmonia. Sou feliz porque fiz boas escolhas em minha vida. Sou feliz por ter tão poucos e profundos amigos.Toda seleção se fez necessária. Foram dores de perdas que se transformaram em buscas por novas possibilidades,pessoas e gestos. Sou feliz quando vivo todo o meu ser. Que a vida seja sempre generosa comigo.

Marisa Speranza

12 de jun de 2007

Fragmentos


"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite"

Clarice Lispector


"O oposto da vida não é a morte: é a repetição."

Geraldo Eustáquio


"Os erros são, no mínimo, um sinal de que estamos saindo da estrada principal e experimentando outros caminhos."

Roger Von Oech

...


Se procurar bem você acaba encontrando Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

11 de jun de 2007

Passagem das Horas



(...) Vi todas as coisas, maravilhei-me de tudo, Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri. vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse, Amei e odiei como toda a gente, Mas para toda a gente isso foi normal e institivo. E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo. (...)"

Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

Liberdade


Quero arriscar meus pensamentos e construir o script de minha vida. Quero sonhar ao contrário e viver do avesso. Quero atitudes e desejar o que é proibido. Quero fingir o orgasmo e acreditar no gozo de amanhã. Quero dançar e suar sob o homem amado e dizer mentiras para não falar apenas verdades. Quero enlouquecer de amor e falar sozinha no meu quarto. Quero banhar-me e sentir meu corpo pulsando vida. Quero relaxar e afogar as mágoas na poesia de cada dia que vivo. Quero ser simples, quero ser inteira, quero ser partes que se unem nos olhares que me encontram. Quero ser feliz e infeliz. Cada coisa a seu tempo. Marisa Speranza

A Perfeição


O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Clarice Lispector
Eu não tenho vergonha de dizer palavrões, de sentir secreções (vaginais ou anais). As mentiras usuais que nos fodem sutilmente essas sim sâo imorais, essas sim são indecentes.
Leila Míccolis

10 de jun de 2007

Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos morrer.Então sabemos tudo do que foi e será.O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.Com doçura.Aí se contém toda a verdade suportável : o contorno, a vontade e os limites.Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável,porque mordeu a alma até aos ossos dela.Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raíz.Cada um de nós é por enquanto a vida.Isso nos baste.

José Saramago


Lição das Gentes - Thais Guimarães




Levei tempo para aprender :desamizades não são coisas de inimigos.
Doemos pelos anos, pilamos com devagareza amargores sob a língua, de um amor interdito pelo perdido.
Os desamigos não têm sabor, nem ardor,raspam pela garganta, como um jacto triste de um bom tempero que azedou.
Depois, é a vida correndo pela vida afora,deixando pedaços para coser sem uma linha de costura.
Então, os desamigos ficam nesse lugar:da possível cerzidura.

Viagem


Quero voar e preciso de coragem. Cair no vazio, sem fronteiras. Paredes dizem onde estou; segura e estável. O quarto pintado de branco é o lugar dos sonhos. Lanço mão da realidade e acordo na queda ao descobrir que ainda tenho medo de liberdade. Apenas os pássaros podem voar. Continuo então tentando em meus devaneios de loucura e anseio.

Marisa Speranza



Coisas que penso


Peito aberto, boca amarga; são as coisas que penso e nem sempre muito boas. Estou para o que der e vier e mesmo assim sou surpreendida. Vida que pulsa em meu prazer e desprazer; depende da hora e se estou "vestida" ou "nua". Pecados são sempre ardentes e discussões ardem para se evitar encontros. Por isso, regojizo na minha capacidade de simplesmente viver e poder pensar e sentir com o corpo todo no pedaço inteiro. Sou boa e sou má; sou alguém e sou ninguém. Isso me basta.

Marisa Speranza

Exausto


Eu quero uma licença de dormir,perdão pra descansar horas a fio,sem ao menos sonhara leve palha de um pequeno sonho.Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,a graça de um estado.Semente.Muito mais que raízes.
Adélia Prado