28 de ago de 2007

Segunda-feira

Hoje saí por aí com bolsa e sapatos chiques. Na rua, reparei que havia colocado dois brincos diferentes; um de ametista e o outro de cristal. Onde estava com minha cabeça? Acho que a moça que me serviu chocolate quente reparou e não ligou. Até porque sempre faço lá os meus lanchinhos e sempre pago a conta .Depois fui ver vitrine sem gastar dinheiro; apenas olhar algumas coisas e cheirar. Adoro cheiro de aromatizador de loja. O da Enjoy é tudo de bom. Lá na clínica a gente comprou o do Cats sapataria. E eu fui falar com as meninas da Maria Fé e jogar conversa fora. Bem que elas queriam me vender um vestidinho, mas eu resisti. Passei também naquele lugar que vende chocolates. Não ligo, mas as embalagens são bonitas.As pessoas sofrem por falta de chocolates. Acho engraçado. Mas gosto de vinho. Adoro olhar para as garrafas em adegas ou mesmo no Lidador. São vários tipos e eu sempre imagino uma cena de romance ou então eu degustando sentada na minha bergé.Estava com uma blusa elegante e jeans. Gosto dessa combinação. Olho as pessoas nos olhos quando passam por mim, de forma que os nossos olhares apenas se toquem. Têm vezes que são mais longos e segue-se um sorriso. As pessoas dizem que sou simpática. Também acho. Se estiver zangada sou brigona, mas já fui mais. Gosto mesmo de rir, conversar e ver gente bonita. Também fui ficar um pouco com minhas sócias e ver a arrumação que a faxineira fez. Está linda. Tudo tinindo e aconchegante. Parece uma casinha para a gente ser feliz. Meu dia foi completo quando meu parceiro de todas as horas foi me buscar de carro novo, cheirando a carro novo. Hoje estou com os cheiros e o meu é um perfume à base de baunilha. Essas misturas me encantam; pessoas e coisas se entrelaçando nas coisas do mundo.

Marisa

22 de ago de 2007

Conto de Alma


São 15h e Alma quer ir embora dali. Não agüenta mais o trabalho de ter que driblar tanta gente. Ela trabalha com a política da empresa e desde pequena já manipulava seus pais. Não suporta mais essa vida; quer paz, alguém que a acolha e diga que está livre. O dinheiro é muito, ela compra seus batons e esmaltes, duas manias que têm. Será que seu marido suportaria tanta futilidade? Ele logo diria: Alma para quê você quer essas besteiras? Alma pensa, desolada, que terá que continuar nesse trabalhinho. Seus sonhos são grandes, não são de riqueza. Ela se imagina numa praia conversando com meninos pescadores e, quem sabe, pegar um peixe também. Seu pai pescava e, às vezes a levava. Ela não gostava, mas agora sente saudades já que ele se foi. Talvez tivesse alguma graça pescar e ver o peixe morrer e depois comê-lo. Não gosta de maltratar animais, muito menos peixe. Na verdade, gosta de ver a rede ser lançada ao mar pelos pescadores, mas ao longe. O pôr do sol. Alma tem mais dois irmãos e, como caçula, tinha que fazer das tripas, coração para ter mais. Sempre lhe diziam que ela poderia esperar. Com isso, ela aprendeu a arte de dar a volta nos outros e conseguir o que desejava. Na verdade, Alma tinha um bom coração e encontrava-se presa em sua própria vaidade inventada. Quem a olhasse diria que era de pedra, que não tinha sentimentos. Vivera assim e sempre teve receio de mostrar sua fragilidade; poderiam pensar que era fraca. Tem um rosto bonito, claro, resoluto e sorri pouco de forma simpática. Seu olhar é duro, sua postura ereta transmite um ar de austeridade. Assim Alma sobreviveu ao mundo. Agora, precisa sair do transe, voltar para a sala de reuniões e vender o produto para seus clientes ingênuos. Alma pensa: um dia, vou fazer alguma coisa que gosto. Levanta-se, ainda, com sua soberba habitual.

Marisa Speranza

1 de ago de 2007

Aos predadores da utopia


dentro de mim
morreram muitos tigres


.
os que ficaram
no entanto
são livres
.
.
Lau Siqueira

Para os meus amigos


Canção da América


Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração.
Assim falava a canção
Que na América ouvi,
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir.

Mas quem ficou, no pensamento voou,
Com seu canto que o outro lembrou.
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou.

Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito,
Mesmo que o tempo e a distância
digam não,
Mesmo esquecendo a canção.

O que importa é ouvir
A voz que vem do coração.
Pois seja o que vier, venha o que vier,
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar,
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

(Milton Nascimento/Fernando Brant)