3 de jul de 2007

Conto da Mariana

Mariana ouve ruídos na casa. Quer dormir,mas tudo lhe parece ensurdecedor.Debate-se, solitária, na cama, sabendo que daqui a pouco o sol irá raiar e terá que se sujeitar a mais um dia. Sua respiração está ofegante, seu medo é grande. Ele foi embora; já não lembrava se fazia um dia ou cem anos. A saudade a sufocava. Onde será que ele estaria? Numa cama de seda ou com latas de cerveja pelo chão? Pensava nela? Quanta dor havia naquela separação. Tantas coisas não ditas e outras, demais. Tudo neles era além da conta; a experiência de um e a inocência de outro. Às vezes, eles se revezavam nesse papel. Era esquisito, todos diziam. Você é feliz? Você faz de conta? Não tinham filhos; ficara ali a vida inteira com ele. Era uma quarta-feira. Ele não chegava e Mariana se desesperou. Ligou para as amigas, para a mãe e para os hospitais. Não ligou pro hotel sórdido onde ele se encontrava com a outra que lhe tirara tudo. Confiava. Seu coração dispara diante da incerteza: estaria morto? Prefiro que ele esteja me traindo. Diante da lembrança, levantou-se da cama, horrorizada. Iria sufocar pela segunda vez. O ar lhe faltava como naquela quarta às três horas da manhã. O marido de Mariana não chegou, de mansinho. Fez barulho para acordá-la. Não precisava. Ela lhe perguntou onde ele esteve e ele disse: longe dos cheiros e dos gostos que fazem eu me lembrar onde estou há tanto tempo. Vou embora. Mariana se desespera e chora e morre. Está morrendo agora. Chora e chora. Nunca mais fará outra coisa a não ser chorar e morrer lentamente.

Marisa Speranza

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